Quando era jovem, queria dar a conhecer ao mundo o que o Japão tem de melhor.
Há saquê.
Existe uma cultura da fermentação.
Existe a vida numa região nevada.
Há muitas coisas de que nos podemos orgulhar perante o mundo.
Por isso, fui para o estrangeiro, com o intuito de transmitir isso.
Mas, à medida que fui viajando pelo estrangeiro, apercebi-me de uma coisa.
O mundo tinha algo de que cada região se orgulhava.
Embora eu quisesse transmitir o que há de melhor no Japão, aprendi, ao mesmo tempo, que também na região do meu interlocutor existem uma cultura e um saber próprios daquele lugar.
Foi só quando fui para o estrangeiro que me apercebi de que só tinha olhado para o Japão.
Em 2016, tive a oportunidade de participar como membro fundador do projeto «Asian Round Table».
Gastronomia, arte, distribuição e design. Trata-se de uma iniciativa que visa reunir pessoas à volta de uma mesa redonda, ultrapassando as barreiras dos setores e das nacionalidades.
Não há quem ensine e quem aprenda. Não há países superiores nem inferiores. Trazemos as culturas e a sabedoria que têm sido valorizadas em cada região e conversamos à mesma mesa.
O nome «Round Table» (Mesa Redonda) encerra esse significado.
Japão, Taiwan, Coreia do Sul, Indonésia, China e Tailândia. Conversámos com os nossos amigos de cada região sobre a cultura, o modo de vida, a gastronomia e o comércio de cada lugar. Sem darmos por isso, as conversas acabavam sempre por se prolongar bastante.
Um dos fundadores, ao longo de muitos anos de contacto com criadores de várias partes da Ásia, fez uma descoberta interessante.
A expressão «comer do mesmo caldeirão» existia como provérbio semelhante em muitos países da Ásia.
Partilhar uma refeição cria confiança. Partilhar a comida aprofunda as relações. As culturas gastronómicas são diferentes. No entanto, o significado de partilhar uma refeição é surpreendentemente semelhante.
Na Coreia do Sul, tive a oportunidade de conviver com os proprietários de adegas de makgeolli.
Saquê e makgeolli. À primeira vista, podem parecer bebidas concorrentes.
No entanto, ao conversar com outros produtores de saquê, comecei a ver uma perspetiva completamente diferente.
Ambas são bebidas alcoólicas produzidas a partir da fermentação do arroz.
Era uma cultura de fermentação do arroz que se desenvolveu no clima, no ambiente natural e no modo de vida de cada região.
Vamos criar uma cidade geminada com Rice Wine. Essa ideia surgiu naturalmente.
Em vez de competirmos, não será possível enriquecermos-nos mutuamente como culturas que partilham raízes comuns?
Pensava que estava a observar o país da Coreia do Sul.
Mas, na realidade, quem eu estava a conhecer eram as pessoas que cultivavam arroz, o fermentavam e se esforçavam por preservar a cultura daquela região.
Cervejarias de Niigata e fábricas de makgeolli da Coreia do Sul.
Apesar de serem de países diferentes, as preocupações que tinham e aquilo que queriam proteger eram surpreendentemente semelhantes.
Por vezes, as regiões estão mais próximas do que as fronteiras.
Foi isso que senti.
Na Indonésia, colaborámos com designers locais num projeto para comercializar o caril japonês.
Não foi o caso de ter levado o caril japonês tal como estava.
Utilizam-se ingredientes locais e os designers locais criam as embalagens com base na sensibilidade local.
A cultura indonésia foi moldando-se, utilizando materiais japoneses.
Não se trata de «vender produtos japoneses» de forma unilateral. Trata-se de criar em conjunto, ao mesmo tempo que entramos em contacto com a sensibilidade e a cultura das regiões da Indonésia. Desta forma, surgiu algo que não teria surgido nem apenas no Japão, nem apenas na Indonésia.
Ir para o estrangeiro não significa apenas transmitir os valores do Japão. Percebi que também significa conhecer os valores próprios daquele lugar e repensar a nossa própria região.
Em Taiwan, convidámos jovens artistas para virem a Nagaoka.
Trata-se de uma iniciativa em que os participantes visitam nove adegas e expressam, através de rótulos de saquê, a visão do mundo de cada uma delas.
O saquê, com os rótulos já finalizados, foi exposto numa galeria de Taiwan.
Não se tratou de uma mera exposição de obras. Foi também uma oportunidade para os jovens de Taiwan testemunharem em primeira mão o momento em que o saquê e a arte taiwanesa se encontraram.
Não era nossa intenção explicar o que é o saquê.
Queria ver Niigata através da perspetiva de Taiwan.
Aquilo que, para os habitantes locais, era tão comum que já nem se notava, ganha um novo significado graças à perspetiva de quem vem de fora.
Mesmo depois de atravessar a fronteira, aconteceu o mesmo. A adega que os artistas de Taiwan viram era uma adega que eu não tinha visto.
Antes de partir para o estrangeiro, pensava que a minha região e o mundo se situavam em lados opostos. Pensava que, para conhecer o mundo, teria de me afastar da minha região.
Mas, na realidade, foi precisamente o contrário.
Quanto mais nos aprofundamos na região, mais pontos em comum com o mundo se tornam visíveis.
Quando se fala da neve de Niigata, acaba-se por falar da natureza e do modo de vida daquela região. Quando se fala de saquê, acaba-se por falar do makgeolli coreano. Quando se fala de adegas, estabelece-se uma ligação com a sensibilidade dos artistas de Taiwan.
As fronteiras são diferentes. Mas as regiões entre si são surpreendentemente próximas.
A região não é um mundo fechado. Se a explorarmos em profundidade, descobriremos que está ligada ao mundo.
Ao viajar pelo estrangeiro, percebi que o mundo também tem regiões.
E agora penso o seguinte.
Para nos ligarmos ao mundo, não basta ter como objetivo o mundo.
Explorar a fundo o que está ao nosso redor. Ao aprofundar o conhecimento sobre a nossa região, acabar por encontrar outra região algures no mundo.
Atualmente, penso que seria bom que existisse esse tipo de desenvolvimento comunitário.
ATSUSHI KABASAWA
Próximo capítulo: «Regiões que se tornam constelações» — Capítulo final: Rumo a um futuro nostálgico