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«O poder do futuro que a culinária cultiva» – Capítulo 3: Na cozinha, as pessoas começam a agir

Existem dois tipos de perguntas que as pessoas fazem na sala de aula.


Uma delas é a pergunta de confirmação. «Está correto? O que devo fazer a seguir?» Quem faz esta pergunta está a olhar para mim. Subjaz a isso a premissa de que é o professor que tem a resposta e que eu sou apenas quem a recebe.


A outra é uma pergunta que não serve para confirmar nada. Acontece algo à nossa frente e a resposta sai-nos espontaneamente da boca.


«Porquê?»


Os olhos da pessoa que faz esta pergunta não estão fixos em mim, mas sim no interior da panela ou da tigela.


A quem começa a preencher por si próprio os espaços em branco que pode preencher, acontece sempre o seguinte. É essa a segunda pergunta. O olhar de quem toma a decisão por si próprio e põe a mão à obra não se dirige para o professor, mas sim para as mudanças que se verificam à sua frente.


 


O que se via mais claramente era a manteiga.


Já participei numa oficina de confeção de manteiga com um produtor de leite que cria vacas leiteiras. Não se usa leite, mas sim natas. Basta colocá-las numa garrafa de plástico, fechar a tampa e agitar sem parar. É só isso.


No início, as crianças agitam-no como se fosse uma brincadeira. No entanto, demora mais tempo do que esperavam. Quando os braços ficam cansados, trocam de lugar com a criança ao lado e toda a sala fica cheia de um barulho de «chaco-chaco».


Ao fim de algum tempo, a sensação na mão muda. O som do líquido a balançar, como um «chap-chap», torna-se subitamente mais abafado num determinado momento. Quem está a agitar o frasco é o primeiro a dar por isso. Ao espreitar para dentro, vê-se que o que antes era um líquido branco se separou num aglomerado amarelado e numa substância semelhante a água.


A expressão dos miúdos naquele momento. Algo que era líquido transformou-se num sólido só por ter sido agitado. Sem que ninguém tivesse acrescentado nada, o objeto mudou de forma mesmo diante dos nossos olhos.


É aqui que surge o «porquê?». Antes mesmo de eu perguntar «por que achas que é assim?», a resposta surge da parte deles.


 


Acho que a ordem é importante. Não é que a explicação venha primeiro e a surpresa só depois. A surpresa vem primeiro e a explicação surge depois, como se fosse o seu suporte. Mesmo quando falo sobre as gotículas de gordura que se chocam e se juntam, as crianças, depois de ficarem surpreendidas, inclinam-se para a frente para ouvir.


Além disso, nesse dia, o próprio criador das vacas leiteiras estava ali ao lado. O lado do outro da manteiga que tinha sido produzida ali mesmo, nas suas mãos, ligou-se, naquele dia, aos olhos das crianças.


O mesmo acontece noutras cozinhas. Quando se espreme limão num líquido roxo-escuro obtido da infusão de shiso vermelho, este transforma-se num vermelho vivo num instante.

Embora o óleo e o vinagre se separem quando misturados, ao adicionar gema de ovo, obtém-se uma maionese cremosa.

Todas estas são mudanças que ocorrem mesmo diante dos nossos olhos. E quem testemunha essas mudanças pergunta «porquê?», antes mesmo de abrir o livro da escola.


 


Numa aula em que preparámos o molho de salada, houve uma criança que, apesar de normalmente não comer vegetais, provou aquela salada.


A pessoa que o acompanhava ficou surpreendida. Ele próprio disse que o que tinha feito estava delicioso.


O sabor não era muito diferente do dos produtos vendidos no mercado. O que mudou foi a minha relação com esses legumes. Os legumes, que antes eu me limitava a comer tal como me eram servidos, passaram a ser algo em que eu próprio investi o meu tempo. Acho que, por vezes, é mais fácil aceitar aquilo em que participámos pessoalmente.


 


Há algo em comum nestas situações. Em todas elas, a surpresa veio primeiro e a explicação só depois.


E essa surpresa surge sempre no momento em que algo à nossa frente se transforma. A vida ganha vida, o que é duro torna-se macio, a farinha e a água transformam-se em pão. A cozinha é o local onde, todos os dias, podemos ver diante dos nossos olhos as coisas a transformarem-se. Além disso, essa transformação não acontece no ecrã, mas sim nas nossas próprias mãos.


A pergunta «Porquê?» não é algo que se ensine a fazer. É algo que surge espontaneamente nas pessoas que testemunharam a mudança com os próprios olhos.


O que quem ensina pode fazer não é colocar questões, mas sim conduzir a pessoa até ao momento em que surge o espanto. A partir daí, o processo começa por si próprio dentro da própria pessoa.


 

 


No entanto, resta ainda uma coisa que gostaria de verificar. O que acontece ao «porquê?» que surge na sala de aula depois de a aula terminar?


Passado algum tempo, recebo, por vezes, relatos a dizer: «Fiz isto também em casa». O que mais me dá prazer no meu trabalho de professora são esses relatos. A animação na sala de aula é visível no momento. Mas não tenho como saber se fizeram ou não em casa. É assim que fico a saber que, mesmo fora do meu campo de visão, algo daquele dia continuou vivo.


No entanto, há salas de aula onde o relatório chega e outras onde não chega. Apesar de todos terem voltado para casa igualmente entusiasmados, num caso o relatório chega à cozinha de casa, enquanto no outro não.


Foi numa aula de sopas que me aproximei dessa diferença.


 


Não se usa faca. Nem se acende o fogão. Basta partir à mão os ingredientes que se podem partir com as mãos e colocá-los no micro-ondas juntamente com água e caldo de legumes. É uma sopa assim tão simples.


Para uma aula de culinária, é bastante simples. Quase não se ensinam técnicas propriamente ditas. Ainda assim, depois desta aula, recebi claramente muitos relatos de pessoas a dizerem que tinham cozinhado em casa.


Há uma frase de que me lembro particularmente bem.


«Nunca tinha observado o interior do frigorífico com tanta atenção.»


Quem disse isso foi um adulto. Dizia que, apesar de abrir o frigorífico todos os dias, nunca tinha reparado nisso.


A geladeira, que abrimos todos os dias, é vista através do olhar fixo dos menus habituais. «Vou fazer isto, por isso vou tirar aquilo.» Isso é uma pesquisa, não é uma observação. No entanto, bastou-me receber um novo olhar — o de procurar algo que se possa partir com as mãos — para que a mesma geladeira se tornasse um lugar que eu via pela primeira vez.


 


Esta sopa foi concebida desde o início a pensar na cozinha de casa.


Se forem apenas coisas que se possam partir com as mãos, até uma criança sozinha consegue fazer. Todas as casas têm um micro-ondas. Não especifiquei os ingredientes para que se pudesse fazer com o que houver no frigorífico de cada casa.


O que lhe passei não foi propriamente uma receita, mas sim uma forma de procurar. As receitas dependem dos ingredientes disponíveis em cada casa, mas se tiver à mão essa forma de procurar, pode começar na cozinha de qualquer casa.


Vi o mesmo acontecer num curso para adultos. Era um seminário sobre como lidar com borras de saquê. A maioria das pessoas vem para receber a receita certa. Perguntam: «Qual é a melhor forma de utilizar este ingrediente?». No entanto, o que eu queria transmitir não era a receita de um prato, mas sim as propriedades do ingrediente.


Quando se compreende as suas características, os resíduos de saquê deixam de ser um ingrediente específico e passam a ser algo que se pode adicionar aos pratos do dia-a-dia. No final da aula, tem havido cada vez mais pessoas que dizem «Vou experimentar com o que tenho em casa» antes de se despedirem. Quem vem com a intenção de levar uma resposta certa acaba por levar consigo novas formas de experimentar.


 


Por isso, dizer «fiz isto em casa» não é um relato de reprodução. É um relato de que aquela pessoa começou a tomar as suas próprias decisões na sua cozinha.


E essa decisão não se esgota numa única vez. O facto de ter «passado a» fazer em casa é o que o demonstra. Não se trata de ter feito uma vez, mas sim de ter passado a fazer. Algo começou a fazer parte do quotidiano dessa pessoa.


 

 


Quem continuar, até onde irá depois disso?


Há um lugar que me permitiu vislumbrar o que se segue a longo prazo. Durante vários anos, fui formadora num curso sobre vegetais, realizado mensalmente e destinado a adultos.


Passamos meses, e por vezes anos, a conviver com a mesma pessoa. Por isso, pude ver como aquela boa educação do primeiro dia foi, aos poucos, desaparecendo. Reunir os documentos, tomar notas cuidadosamente, fazer uma ou duas perguntas com alguma timidez. É assim que tudo começa.


Vou falar sobre três pessoas.


 


A primeira é a Y-chan.


Quando começou a frequentar as aulas, era um dos alunos mais calados. Mas, com o passar dos meses, as perguntas foram aumentando e, entre elas, começaram a surgir comentários pessoais, do tipo «gostaria de experimentar isto».


Os legumes que a Y-chan observava eram um pouco diferentes. Enquanto nós falávamos sobre a preparação e os valores nutricionais, ela contemplava os legumes em si, como se fossem algo adorável.


Um dia, pegou no Kagura Nanban e disse: «Que giro!».


Diz-se que o «Kagura Nanban» é um vegetal que recebeu esse nome por se assemelhar às máscaras do Kagura. Tem uma superfície rugosa e pregas, o que lhe confere um aspeto um pouco assustador.


E dizem que esse vegetal é giro.


Essa Y-chan está agora a criar um livro infantil cujo tema são os legumes. Acho que as personagens principais do livro já estavam nos olhos dela naquela altura.


 


A segunda pessoa é o Sr. K.


Não era uma distância que se pudesse considerar «por ser vizinho», mas, mesmo assim, vinha sempre até aqui, demorando algum tempo no trajeto. Era uma pessoa que não falava muito e que trabalhava sempre em silêncio.


Mais tarde, essa Sra. K começou a dar aulas de culinária em sua casa. Não foi ela própria que me contou, mas soube disso por acaso, muito tempo depois. Assim, as minhas aulas não terminaram na minha casa, mas continuaram na cozinha da Sra. K, dirigidas a outras pessoas.


 


A terceira pessoa é o S.


Cultivo legumes na minha horta e frequentava o curso porque queria aumentar o meu repertório de receitas com esses legumes. As perguntas de quem cultiva uma horta são muito concretas. O que se aprende leva-nos a querer saber mais.


Mais tarde, esta pessoa obteve uma certificação na área das hortícolas já na terceira idade. E contou-nos o seguinte:


«Ao ouvir o que o professor dizia, percebi que também queria falar sobre vegetais com confiança, por isso tirei a certificação.»


No que diz respeito ao conhecimento sobre vegetais, esta pessoa, que sempre cultivou a terra, já o possuía em abundância desde o início. O que lhe faltava não era conhecimento, mas sim a sensação de que era alguém com legitimidade para falar sobre vegetais. O que adquiriu ao vir aprender foi a confiança de que podia falar sobre o assunto.


 


Os três estavam a fazer a mesma coisa. Deixavam de tomar notas, as perguntas aumentavam, os seus desejos misturavam-se nas perguntas e, então, começavam a agir. A sequência foi a mesma para os três.


E nenhum dos três mudou logo à primeira tentativa. São pessoas que continuaram a frequentar o espaço todos os meses. Para que a timidez se dissipasse, foi necessário que aquele encontro mensal se repetisse várias vezes. A mudança requer um espaço contínuo. Por outras palavras, desde que haja um espaço contínuo, os adultos mudam.


Mais uma coisa. As três, depois do que aprenderam, passaram de recetoras a transmissoras. Criam livros ilustrados. Dão aulas. Obtêm qualificações e falam com confiança. Ninguém lhes disse para se tornarem transmissoras. Ainda assim, sem darem por isso, as três abriram por si próprias novas portas.


 


Só para que fique claro, não quero dizer que a mudança que se verificou nas três pessoas se deva ao meu curso. A ordem dos acontecimentos é, provavelmente, o contrário.


Os três já estavam preparados para dar o primeiro passo. O grupo de estudo limitou-se a proporcionar-lhes um local onde se reunissem, uma oportunidade mensal e alguém a quem pudessem fazer perguntas.


A vontade de «experimentar» não era algo criado pela sala de aula, mas sim algo que já existia na pessoa e que vinha à tona. É exatamente o mesmo que tenho observado nas salas de aula infantis.


No entanto, no caso dos adultos, a essa sensação soma-se uma timidez acumulada ao longo de muitos anos. Sem pressa, uma vez por mês, no mesmo local e à mesma hora. Talvez tenha sido essa modesta acumulação que, pouco a pouco, me ajudou a relaxar.


 


A criança agitou a garrafa de plástico e perguntou: «Porquê?». O adulto, depois de vários anos a frequentar o local, disse: «Quero experimentar».


A idade e o motivo são completamente diferentes. No entanto, em ambos os casos, não foi por terem sido ensinados por alguém que agiram. O que já existia dentro dessas pessoas veio à tona por causa da cozinha.


Eu pensava que estava a ensinar a cozinhar. Explicar como se faz e partilhar dicas. Achava que era esse o meu trabalho. No entanto, agora que vejo tudo isto assim, parece-me que o que eu fazia não era, afinal, motivar as pessoas.


Então, o que é que leva uma pessoa a tomar a iniciativa de agir?


TERUMI ISHIBASHI

FARM8 Co. Ltd.,

Próximo capítulo: «O poder do futuro cultivado pela culinária» — Capítulo 4: O ângulo de visão

*Este artigo foi traduzido automaticamente.

TERUMI ISHIBASHI Japan

Nutricionista. Diretora Executiva da FARM8, Lda.

Desde há muitos anos que se dedica a atividades relacionadas com a alimentação, tais como refeições em creches, aulas de culinária, cursos de educação alimentar e desenvolvimento de produtos.
Criou espaços onde pessoas de várias gerações, desde crianças a adultos, podem cozinhar, e tem acompanhado essa evolução.
Atualmente, na FARM8, Lda., dedica-se ao desenvolvimento de produtos que valorizam os ingredientes locais e a cultura da fermentação.