Fazer uma sopa de miso ou acrescentar mais um prato dá apenas um pouco de trabalho. Mesmo assim, se acharmos que dá trabalho, não o fazemos. Eu também sou assim. Na verdade, há mais dias em que penso: «Hoje vou deixar isso para lá».
Ainda assim, há dias em que vou para a cozinha, não porque saiba que é melhor assim, mas porque, sem saber bem porquê, me apetece cozinhar.
Apesar de ter acompanhado durante todo este tempo essa vontade de criar, nunca lhe dei um nome.
Não conheço ninguém que tenha começado a cozinhar por ter sido convidado a fazê-lo.
No entanto, já vi inúmeras pessoas que se mobilizaram. A ninguém foi dito para se motivar. Não houve ordens, nem persuasão, nem recompensas. Pelo contrário, nem sequer lhes foi dito para se esforçarem. E, mesmo assim, mobilizaram-se.
Acho que o que tenho vindo a observar ao longo deste livro tem sido, afinal, o momento em que esse «gostaria de experimentar» vem à tona.
Por outro lado, também já vi inúmeros exemplos de apelos corretos.
O feito à mão é importante. A alimentação constrói o corpo. Vamos para a cozinha com as crianças. Tudo isto parece muito sensato. Mas não é só isso que motiva as pessoas a agir. Quem aceita essa verdade acena com a cabeça, dizendo «Sim, é verdade», e volta à sua vida de sempre.
Como pessoa que transmite esta mensagem, já me deparei com este obstáculo inúmeras vezes. Quanto mais se diz o que está certo, menos as pessoas se mobilizam. Pelo contrário, cheguei mesmo a sentir que a culinária ia ficando cada vez mais relegada para o fundo da lista das «coisas que é preciso fazer».
Enquanto agirmos com a mentalidade de «tenho de fazer isto», tendemos inevitavelmente a limitar-nos ao mínimo indispensável. Penso que isto não é propriamente preguiça, mas sim uma reação perfeitamente natural do ser humano.
Então, o que é que havia no local onde se encontravam as pessoas que se deslocaram?
Tudo o que tínhamos visto até então estava ali reunido. Num local onde as condições estavam reunidas, o fogo acendeu-se por si só.
Quando vejo o «Gostava de experimentar», lembro-me da fermentação.
A fermentação era uma técnica que consistia em deixar o próprio tempo agir. Há ainda outra característica importante na fermentação: não é possível controlá-la.
É inútil dizer ao koji para «trabalhar». A única coisa que se pode fazer é regular a temperatura, ajustar a humidade e esperar. Se as condições forem as adequadas, o processo começa por si próprio, sem que seja preciso pedir. Se as condições não forem as adequadas, por mais que se deseje, o processo não começa.
Depois de ter trabalhado durante muito tempo tanto na área da culinária como na da fermentação, passei a ver estas duas áreas como se fossem a mesma coisa.
O desejo de «experimentar» não pode ser imposto de fora. Também não é possível criá-lo diretamente. A única coisa que se pode fazer é preparar um espaço com liberdade, segurança e onde haja resposta, e esperar que isso comece.
Ao continuar a exercer a profissão de professor, cheguei à conclusão de que o importante não era a técnica de ensinar, mas sim a forma de preparar este espaço para esperar.
Por isso, na sala de aula, decidi não dizer que «isso é útil».
Pode parecer surpreendente. Afinal, este livro trata precisamente de como a força se desenvolveu através da culinária. Mas sei o que acontece no momento em que digo isso na sala de aula. A brincadeira transforma-se em trabalho de casa.
A mão que bate a manteiga é uma mão que quer saber o que acontece quando se bate, e não uma mão destinada a treinar a força. Se acrescentarmos uma frase do tipo «Isto é útil», a criança percebe imediatamente: «Ah, então isto era uma tarefa dos adultos.»
«Está delicioso, é divertido, quero repetir.» É só isto que se pode dizer na sala de aula. Se vai ser útil ou não, mesmo que se fique calado, isso pode acabar por se revelar mais tarde. Pelo menos eu, pretendo manter essa distância.
Pela mesma razão, decidi que também não vou tentar fazer com que gostem de cozinhar.
A capacidade de deixar a outra pessoa agir como quiser transmite-se, de forma surpreendente, à outra pessoa. Se o desejo de que a outra pessoa goste de nós for demasiado forte, isso pode, pelo contrário, levá-la a ficar na defensiva. Tal como um prato que deixámos de lado por acharmos que «temos de o comer» acaba por não se manter, também o sentimento de afeto desaparece no momento em que o transformamos numa obrigação.
O único que posso fazer não é deixá-lo fazer o que quiser, mas sim acompanhá-lo até ao momento em que ele possa vir a gostar.
A partir daí, se a chama se acende ou não, depende de cada um. Há quem não consiga acendê-la. E não há problema nenhum nisso.
Às vezes, parece apenas que não está a funcionar.
Demorou vários meses até que a Y começasse a fazer mais perguntas. O S só obteve a certificação muito tempo depois de ter começado a frequentar as aulas. Entre as pessoas que, naquele dia na sala de aula, pareciam não ter passado por nada, há quem, mais tarde, sinta que algo começa a surgir dentro de si.
Tal como na fermentação, o tempo que observamos aqui e o tempo que decorre lá decorrem separadamente. Por isso, é precipitado concluir que foi um fracasso só porque não se verificou qualquer reação nesse dia.
Este trabalho envolve um período de espera, sem que se vejam resultados, que é muito mais longo do que se imagina.
No entanto, acho que esperar não tem nada a ver com paciência.
É muito raro os pais desistirem a meio do processo de aprendizagem de andar de bicicleta das crianças. Mesmo que caiam, ajudam-nas a levantar-se e voltam a empurrá-las. Não é por terem paciência. É porque sabem que a criança acabará por conseguir andar de bicicleta.
É precisamente porque sei disso que consigo acreditar. E é porque acredito que consigo esperar, enquanto o apoio. Por outro lado, quando não consigo esperar, é, na maioria das vezes, porque não acredito que seja possível.
O facto de eu ter conseguido esperar na sala de aula não se deveu a ter aprendido a ser paciente. Dever-se-á ao facto de, após décadas a observar, ter passado a acreditar que as pessoas possuem, por natureza, a capacidade de dar o primeiro passo. Quando se acredita nisso, esperar não é assim tão difícil.
Ao escrever isto, sinto que, finalmente, consigo resumir em uma única frase o que foi o meu trabalho.
Não é que eu tenha trabalhado a ensinar a cozinhar. Penso que o meu trabalho consistiu em aumentar o número de pessoas que sentem vontade de voltar a experimentar cozinhar.
As receitas podem ser esquecidas. As técnicas também mudam com o passar do tempo. Mas, desde que permaneça a vontade de experimentar, as pessoas voltam sempre à cozinha.
No entanto, há apenas uma coisa que me preocupa.
Para a fermentação, são necessários barris. Mesmo que se regulem a temperatura e o tempo, se não houver um local para acolher os ingredientes, nada acontece. O mesmo se aplica à vontade de experimentar. Quando esse desejo surge, será que ainda existe, ao alcance da mão, um local como a cozinha, ingredientes como os ovos e alguém que nos diga que não faz mal falhar?
Se não restarem oportunidades, a chama que acendeu com tanto esforço perderá o seu lugar.
Então, como é que podemos garantir, daqui para a frente, que esse «gostaria de experimentar» continue a ter um lugar onde possa regressar?
TERUMI ISHIBASHI
FARM8 Co. Ltd.,